Por que te ris? Não sei. Porque me quero rir. Mas lá fora chove. Não quero saber. Rio-me. Rio-me. Sinto-me rodopiar para fora de mim, sinto-me sair de mim ao rir tanto. Mas lá fora há desgraças. Não sei. Neste momento estou comigo. Estou no meu mundo. Tudo me parece motivo para rir. Por que te ris? Já te disse que não sei. Mas por que te ris? Porque sou uma criança. Mas por que te ris? Porque as crianças são felizes? Mas por que te ris? Porque sou feliz. Mas lá fora há um mundo a sofrer. Eu sei. Mas rio-me. Preciso de me rir. Preciso de sair de mim. Saio de mim. Vejo-me a planar por cima de mim, por cima de ti. Vejo-me a rir perante todas as situações. Vejo-me mudar de cores, vejo-me aberta, vejo-me clara, transparente, feliz, simples. Por que te ris?
Porque sou eu.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Solidão...
Assim se sentia.
Embora rodeada de barulho, de luzes, de pessoas, de animação, de tecnologia, encontrava-se verdadeiramente só.
Sentia-se numa encruzilhada negra, com caminhos desconhecido à sua frente, sem bússula, vendada, surda, tendo-se apenas a si própria como companhia.
Todo o barulho do mundo que a rodeava não suplantava o silêncio negro que a consumia por dentro.
Era o nada. O nada total e absoluto, e não o nada do qual tudo brota.
Seca, vazia, ressequida, um invólucro quebradiço, de casca de ovo.
Não sabia para onde se dirigir, tudo era tão denso, tudo era tão escuro, para lado nenhum que olhasse encontrava a mais pequena réstia de luz. Tinha os olhos vendados, os ouvidos tapados, as mãos cobertas de pesadas luvas que não a deixavam tactear nada.
Solidão...
Apenas ela se acompanhava.
Apenas podia escutar o coração, a única voz que nem o silêncio forçado dos ouvidos poderia alguma vez calar.
Solidão...
Não via, nem sentia, os amigos, a família, os dias, as noites. Nada sentia.
Estava vazia, totalmente vazia, a sua essência há muito que se esfumara na eterna busca de quem era. Já não era ninguém.
Sem ver, sem cheirar, sem sentir, sem ouvir.
Apenas guiada por uma voz interior, que a fazia seguir por trilhos que ninguém mais compreendia, que ninguém mais entendia. Trilhos que a magoavam, que a feriam, que feriam quem a rodeava.
Mas trilhos que ela sabia, sem que alguém lho tivesse dito, porque era surda ao Mundo, que tinha que seguir.
Trilhos que doíam, que cortavam, que dilaceravam, mas que a enforteciam.
Sabia que quando chegasse ao seu final, encontraria a audição perdida, a visão que a abandonara, voltaria a sentir, voltaria a cheirar, voltaria a viver.
Até lá, sofria em silêncio essa solidão que não a abandonava, que a fazia ter medo a cada momento de dar um passo em falso, que a sufocava, que a fazia tremer sem saber por que finos fios caminhava, sempre receosa de cair num abismo do qual sabia ser incapaz de se levantar por não ver, não cheirar, não sentir, não ouvir.
Era a solidão total, completa e absoluta. De que lhe servia todo o Mundo de cenário, se era incapaz de o apreciar?...
Para a Fábrica de Letras, "Abismo"
Assim se sentia.
Embora rodeada de barulho, de luzes, de pessoas, de animação, de tecnologia, encontrava-se verdadeiramente só.
Sentia-se numa encruzilhada negra, com caminhos desconhecido à sua frente, sem bússula, vendada, surda, tendo-se apenas a si própria como companhia.
Todo o barulho do mundo que a rodeava não suplantava o silêncio negro que a consumia por dentro.
Era o nada. O nada total e absoluto, e não o nada do qual tudo brota.
Seca, vazia, ressequida, um invólucro quebradiço, de casca de ovo.
Não sabia para onde se dirigir, tudo era tão denso, tudo era tão escuro, para lado nenhum que olhasse encontrava a mais pequena réstia de luz. Tinha os olhos vendados, os ouvidos tapados, as mãos cobertas de pesadas luvas que não a deixavam tactear nada.
Solidão...
Apenas ela se acompanhava.
Apenas podia escutar o coração, a única voz que nem o silêncio forçado dos ouvidos poderia alguma vez calar.
Solidão...
Não via, nem sentia, os amigos, a família, os dias, as noites. Nada sentia.
Estava vazia, totalmente vazia, a sua essência há muito que se esfumara na eterna busca de quem era. Já não era ninguém.
Sem ver, sem cheirar, sem sentir, sem ouvir.
Apenas guiada por uma voz interior, que a fazia seguir por trilhos que ninguém mais compreendia, que ninguém mais entendia. Trilhos que a magoavam, que a feriam, que feriam quem a rodeava.
Mas trilhos que ela sabia, sem que alguém lho tivesse dito, porque era surda ao Mundo, que tinha que seguir.
Trilhos que doíam, que cortavam, que dilaceravam, mas que a enforteciam.
Sabia que quando chegasse ao seu final, encontraria a audição perdida, a visão que a abandonara, voltaria a sentir, voltaria a cheirar, voltaria a viver.
Até lá, sofria em silêncio essa solidão que não a abandonava, que a fazia ter medo a cada momento de dar um passo em falso, que a sufocava, que a fazia tremer sem saber por que finos fios caminhava, sempre receosa de cair num abismo do qual sabia ser incapaz de se levantar por não ver, não cheirar, não sentir, não ouvir.
Era a solidão total, completa e absoluta. De que lhe servia todo o Mundo de cenário, se era incapaz de o apreciar?...
Para a Fábrica de Letras, "Abismo"
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Troveja, lá fora.
Aqui estou quente, confortável, tapada, morna.
Lá fora, o vento uiva, os trovões ribombam, a chuva fustiga a janela.
Insensivelmente, quisera eu estar lá fora.
Sentir essas grossas pingas de água baterem-me na cara.
Lavarem-me.
Vou lá para fora, não me interessa o calor que deixo para trás.
Vou lá para fora, não me interessa o certo que aqui tenho, o conforto, os lençóis.
Quero sentir-me una com a chuva que cai, com as nuvens pesadas e densas que cobrem o céu imenso. Sentir-me una com este vento furioso, eu própria sou o vento furioso, não a calma brisa que afaga as folhas das árvores, mas esta intempérie que quebra ramos de madeira fortes e antigos.
Deixo a minha alma voar, deixo o meu corpo quebrar ao sabor do vento cruel.
Não sei para onde vou, não sei que caminhos estou a percorrer.
O certo, o conforto, o estável...
Tudo ficou lá atrás. Muito lá atrás.
Quero lembrar-me de como era o meu quarto. De como eram os meus lençóis. Não consigo, a memória falha-me.
Seria realmente quente?
Já não o sei.
Sei que aqui fora há trovoada.
Fui eu que escolhi estar aqui fora. Fui eu que escolhi a Natureza sobre o que conhecia.
E de repente...
De repente sinto-me acolhida.
Não, a chuva já não me molha, as pedras já não ferem os meus pés descalços, a pequena mochila que trouxe comigo já não me pesa porque se desintegrou. O vento já não me assusta e os raios não me acertam.
Sinto que esta força, este espírito, esta energia, esta Natureza, me aceita como filha dela.
Tudo o que é acessório desapareceu.
Estou simplesmente eu...
Eu, a minha alma, o meu espírito.
Continua a trovejar, mas por qualquer razão este sempre foi o meu som preferido.
A cada trovão, uma sensação nova de acolhimento.
Quão desconfortáveis agora me parecem aqueles lençóis!
Quão estranhos aqueles apetrechos que usava nos meus pés.
Agora sinto esta terra debaixo de mim.
Agora sou a tempestade que assola a terra, sou o vento que bate nas árvores, sou a chuva que tudo molha e limpa, porque eu própria estou molhada e limpa.
Estas gotas de água, primeiramente incómodas, formam a minha nova roupa.
Aqui estou.
Troveja.
A noite é escura, mas eu tudo consigo ver, tudo consigo sentir.
Troveja.
Mas eu própria sou o trovão, não há como diferenciar o seu rugido da minha voz.
Vejo-me vestida dos mais cintilantes e puros diamantes, as gotas de água que escorrem furiosamente por cada folha, por cada tronco, e ao mesmo tempo eu sou cada folha, cada tronco.
Quão distante me parece o conforto longínquo de um quarto, de uns sapatos, de um aquecedor...
Agora estou em casa...
A Natureza acolheu-me.
A ela regresso.
Troveja, lá fora.
Trovejo... trovejo, na tentativa de chamar mais almas perdidas para que a mim, para que à Natureza, regressem, saindo do abismo triste e escuro construído pela raça humana...
Aqui estou quente, confortável, tapada, morna.
Lá fora, o vento uiva, os trovões ribombam, a chuva fustiga a janela.
Insensivelmente, quisera eu estar lá fora.
Sentir essas grossas pingas de água baterem-me na cara.
Lavarem-me.
Vou lá para fora, não me interessa o calor que deixo para trás.
Vou lá para fora, não me interessa o certo que aqui tenho, o conforto, os lençóis.
Quero sentir-me una com a chuva que cai, com as nuvens pesadas e densas que cobrem o céu imenso. Sentir-me una com este vento furioso, eu própria sou o vento furioso, não a calma brisa que afaga as folhas das árvores, mas esta intempérie que quebra ramos de madeira fortes e antigos.
Deixo a minha alma voar, deixo o meu corpo quebrar ao sabor do vento cruel.
Não sei para onde vou, não sei que caminhos estou a percorrer.
O certo, o conforto, o estável...
Tudo ficou lá atrás. Muito lá atrás.
Quero lembrar-me de como era o meu quarto. De como eram os meus lençóis. Não consigo, a memória falha-me.
Seria realmente quente?
Já não o sei.
Sei que aqui fora há trovoada.
Fui eu que escolhi estar aqui fora. Fui eu que escolhi a Natureza sobre o que conhecia.
E de repente...
De repente sinto-me acolhida.
Não, a chuva já não me molha, as pedras já não ferem os meus pés descalços, a pequena mochila que trouxe comigo já não me pesa porque se desintegrou. O vento já não me assusta e os raios não me acertam.
Sinto que esta força, este espírito, esta energia, esta Natureza, me aceita como filha dela.
Tudo o que é acessório desapareceu.
Estou simplesmente eu...
Eu, a minha alma, o meu espírito.
Continua a trovejar, mas por qualquer razão este sempre foi o meu som preferido.
A cada trovão, uma sensação nova de acolhimento.
Quão desconfortáveis agora me parecem aqueles lençóis!
Quão estranhos aqueles apetrechos que usava nos meus pés.
Agora sinto esta terra debaixo de mim.
Agora sou a tempestade que assola a terra, sou o vento que bate nas árvores, sou a chuva que tudo molha e limpa, porque eu própria estou molhada e limpa.
Estas gotas de água, primeiramente incómodas, formam a minha nova roupa.
Aqui estou.
Troveja.
A noite é escura, mas eu tudo consigo ver, tudo consigo sentir.
Troveja.
Mas eu própria sou o trovão, não há como diferenciar o seu rugido da minha voz.
Vejo-me vestida dos mais cintilantes e puros diamantes, as gotas de água que escorrem furiosamente por cada folha, por cada tronco, e ao mesmo tempo eu sou cada folha, cada tronco.
Quão distante me parece o conforto longínquo de um quarto, de uns sapatos, de um aquecedor...
Agora estou em casa...
A Natureza acolheu-me.
A ela regresso.
Troveja, lá fora.
Trovejo... trovejo, na tentativa de chamar mais almas perdidas para que a mim, para que à Natureza, regressem, saindo do abismo triste e escuro construído pela raça humana...
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Mais um cheirinho do que hei de publicar =)
"Percebendo que a filha estava morta de cansaço, Roberta agradeceu uma vez mais a Julião “pelo magnífico jantar e calorosa recepção com que nos presenteou, e por toda a sua ajuda”.
- Sim, Juma, obrigada – disse também Amélia, tão cansada que já mal abria os olhos – Diverti-me muito.
Talvez por esse facto não se tenha dado conta do abraço ligeiramente mais apertado que o seu professor lhe deu, ou do beijo um tudo nada mais intenso e não tão no centro da face como seria politicamente correcto. Nem Julião, pouco habituado a beber vinho à refeição, e muito menos a completar a noite com um Porto, se deu conta de que o fizera. Ou talvez se tivesse dado, não o querendo admitir a si próprio. Perpassava-o uma sensação de perigo, de desejo pelo proibido, e o proibido nesse momento era Amélia.
Há muito, muito tempo que não tinha uma mulher nos braços, e sentiu o desejo invadi-lo. Não era correcto, bem o sabia, e talvez fosse apenas o efeito do álcool no seu corpo. Mas pela primeira vez observou não Mia a aluna mas Amélia Miranda a mulher.
Sentiu a súbita necessidade de não a deixar largar, sentiu a vontade incontrolável de lhe pedir que ficasse, independentemente de ser menor de idade, independentemente de estar com a mãe ao lado.
Assustado com os seus próprios sentimentos, que ainda não conseguia identificar por completo, libertou-se de Amélia quase com aspereza, dando graças por ela estar tão ensonada que não se dava conta. No entanto, Roberta dera-se conta de tudo. Juma pressentiu o olhar dela sobre si, indagador, penetrante, e, acima de tudo, reprovador. Como se de repente tivesse entendido tudo. Cada “querida Amélia” que ele lhe tinha dirigido, embora não tivesse tido para si nenhum significado mais profundo, havia já sido interpretado por Roberta em toda a sua profundidade.
Evitando os olhares de Roberta, Julião fechou tão correctamente quanto possível a porta da rua. Seguidamente, encostando-se à parede, deixou-se escorregar até ao chão, atónito com o que acabara de descobrir. Levando mãos à cabeça, murmurava “é impossível, é impossível”.
Sem saber como nem porquê, quando nem onde, Amélia, a doce Amélia, a suave Amélia, a perfeita Amélia, fora-se entranhando no seu íntimo. Já há uns dias, quando ela fora para o hospital, Juma se dera conta de que ela não era para si uma mera aluna como Laura, ou Claudette. Era uma amiga.
Mas hoje…
O que ele sentira hoje não era o que se sentia por uma mera amiga.
Sentia-se atraído por ela, e nem sabia ao certo quando isso começara.
Recordava-se agora de todas as aulas em que, sem se dar conta, aproveitava cada pretexto para estar perto de Amélia. Recordava-se de todas as alturas em que por qualquer pormenor que poderia parecer insignificante, procurara tocar nas suas mãos, para corrigir a posição, procurara tocar nas suas costas, para que a postura fosse mais erecta, procurara que Amélia fosse o seu par para demonstrar certos passos às restantes alunas…
E ao mesmo tempo em que se ia lembrando disto, forçava-se a pensar que deveria ser tudo uma ilusão, ela era aluna e ele professor, nada mais natural que ele tivesse que a corrigir. Era como se um professor ou um mestre de um qualquer instrumento musical não tocasse no aluno para corrigir a posição das mãos!
No entanto, apesar de tentar assim aplacar a sua consciência, algo existia que lhe dizia claramente que estava à beira do abismo: estava apaixonado por Amélia Miranda, a sua talentosa aluna. Estava atraído irremediavelmente por ela, apenas assim se explicava que tentasse por todos os meios estar próximo dela, tocá-la, corrigi-la.
Abismo. Ao pé dele se encontrava. E não sabia que passo dar para não cair nesse buraco negro que seria a sua perdição."
in Livro com título por definir ;)
- Sim, Juma, obrigada – disse também Amélia, tão cansada que já mal abria os olhos – Diverti-me muito.
Talvez por esse facto não se tenha dado conta do abraço ligeiramente mais apertado que o seu professor lhe deu, ou do beijo um tudo nada mais intenso e não tão no centro da face como seria politicamente correcto. Nem Julião, pouco habituado a beber vinho à refeição, e muito menos a completar a noite com um Porto, se deu conta de que o fizera. Ou talvez se tivesse dado, não o querendo admitir a si próprio. Perpassava-o uma sensação de perigo, de desejo pelo proibido, e o proibido nesse momento era Amélia.
Há muito, muito tempo que não tinha uma mulher nos braços, e sentiu o desejo invadi-lo. Não era correcto, bem o sabia, e talvez fosse apenas o efeito do álcool no seu corpo. Mas pela primeira vez observou não Mia a aluna mas Amélia Miranda a mulher.
Sentiu a súbita necessidade de não a deixar largar, sentiu a vontade incontrolável de lhe pedir que ficasse, independentemente de ser menor de idade, independentemente de estar com a mãe ao lado.
Assustado com os seus próprios sentimentos, que ainda não conseguia identificar por completo, libertou-se de Amélia quase com aspereza, dando graças por ela estar tão ensonada que não se dava conta. No entanto, Roberta dera-se conta de tudo. Juma pressentiu o olhar dela sobre si, indagador, penetrante, e, acima de tudo, reprovador. Como se de repente tivesse entendido tudo. Cada “querida Amélia” que ele lhe tinha dirigido, embora não tivesse tido para si nenhum significado mais profundo, havia já sido interpretado por Roberta em toda a sua profundidade.
Evitando os olhares de Roberta, Julião fechou tão correctamente quanto possível a porta da rua. Seguidamente, encostando-se à parede, deixou-se escorregar até ao chão, atónito com o que acabara de descobrir. Levando mãos à cabeça, murmurava “é impossível, é impossível”.
Sem saber como nem porquê, quando nem onde, Amélia, a doce Amélia, a suave Amélia, a perfeita Amélia, fora-se entranhando no seu íntimo. Já há uns dias, quando ela fora para o hospital, Juma se dera conta de que ela não era para si uma mera aluna como Laura, ou Claudette. Era uma amiga.
Mas hoje…
O que ele sentira hoje não era o que se sentia por uma mera amiga.
Sentia-se atraído por ela, e nem sabia ao certo quando isso começara.
Recordava-se agora de todas as aulas em que, sem se dar conta, aproveitava cada pretexto para estar perto de Amélia. Recordava-se de todas as alturas em que por qualquer pormenor que poderia parecer insignificante, procurara tocar nas suas mãos, para corrigir a posição, procurara tocar nas suas costas, para que a postura fosse mais erecta, procurara que Amélia fosse o seu par para demonstrar certos passos às restantes alunas…
E ao mesmo tempo em que se ia lembrando disto, forçava-se a pensar que deveria ser tudo uma ilusão, ela era aluna e ele professor, nada mais natural que ele tivesse que a corrigir. Era como se um professor ou um mestre de um qualquer instrumento musical não tocasse no aluno para corrigir a posição das mãos!
No entanto, apesar de tentar assim aplacar a sua consciência, algo existia que lhe dizia claramente que estava à beira do abismo: estava apaixonado por Amélia Miranda, a sua talentosa aluna. Estava atraído irremediavelmente por ela, apenas assim se explicava que tentasse por todos os meios estar próximo dela, tocá-la, corrigi-la.
Abismo. Ao pé dele se encontrava. E não sabia que passo dar para não cair nesse buraco negro que seria a sua perdição."
in Livro com título por definir ;)
segunda-feira, 5 de abril de 2010
E o silêncio continua.... transformando-se num abismo
E ali estava. Novamente.
Sozinho no meio de uma multidão de silêncios diferentes e agudos.
Sem saber o que pensar, sem saber como agir, sem saber como interpretar tantas reacções contrárias e ambíguas.
Sem saber como ter coragem para enfrentar o que o futuro lhe reservava.
No meio de tanto silêncio, a sua alma ansiava por uma voz apenas. Por um contacto apenas.
E esse contacto não chegava.
Não podia saber que do outro lado da parede, ela se encontrava com o seu telemóvel, sempre, sempre, esperando, desesperando, vivendo enquanto definhava.
No mesmo silêncio abismal se encontrava ele, tão perto e tão longe dela, preso numa sala preta, sem janelas, com um ar bafiento e denso que não o deixava respirar, que o sufocava. Queria andar e não conseguia, o preto denso que inundava a sala era mais pesado que todo o peso do mundo concentrado nele próprio.
Abafava.
Sufocava.
Queria ir ao encontro dela, mas todo um mundo de convenções sociais os separavam. Esse mundo era a parede entre ambos.
Quais marionetas sem vida, presas pelo fio a um desconhecido manipulador, encontravam-se a escassos centímetros um do outro. Separados por uma parede. Uma parede maior que o mundo.
Uma parede negra de silêncio e desconhecimento.
Desesperavam pela companhia inatingível que poderiam proporcionar.
Ela, vivendo, definhava ao lado do telemóvel morto.
Ele, sufocando, queria romper aquele abismo denso e condensado, negro e faminto, gélido, que o separava dela.
E toda a distância entre ambos se reduzia a míseros centímetros maiores que o Universo.
Para a Fábrica de Letras, sob o tema "abismo".
Relaciona-se com a postagem "Um silêncio que dói", neste mesmo blog.
Sozinho no meio de uma multidão de silêncios diferentes e agudos.
Sem saber o que pensar, sem saber como agir, sem saber como interpretar tantas reacções contrárias e ambíguas.
Sem saber como ter coragem para enfrentar o que o futuro lhe reservava.
No meio de tanto silêncio, a sua alma ansiava por uma voz apenas. Por um contacto apenas.
E esse contacto não chegava.
Não podia saber que do outro lado da parede, ela se encontrava com o seu telemóvel, sempre, sempre, esperando, desesperando, vivendo enquanto definhava.
No mesmo silêncio abismal se encontrava ele, tão perto e tão longe dela, preso numa sala preta, sem janelas, com um ar bafiento e denso que não o deixava respirar, que o sufocava. Queria andar e não conseguia, o preto denso que inundava a sala era mais pesado que todo o peso do mundo concentrado nele próprio.
Abafava.
Sufocava.
Queria ir ao encontro dela, mas todo um mundo de convenções sociais os separavam. Esse mundo era a parede entre ambos.
Quais marionetas sem vida, presas pelo fio a um desconhecido manipulador, encontravam-se a escassos centímetros um do outro. Separados por uma parede. Uma parede maior que o mundo.
Uma parede negra de silêncio e desconhecimento.
Desesperavam pela companhia inatingível que poderiam proporcionar.
Ela, vivendo, definhava ao lado do telemóvel morto.
Ele, sufocando, queria romper aquele abismo denso e condensado, negro e faminto, gélido, que o separava dela.
E toda a distância entre ambos se reduzia a míseros centímetros maiores que o Universo.
Para a Fábrica de Letras, sob o tema "abismo".
Relaciona-se com a postagem "Um silêncio que dói", neste mesmo blog.
Um olhar apenas
Nos teus olhos cor da madeira escura encontro um abismo. Encontro neles promessas de paixões por realizar, encontro neles promessas de felicidade por encontrar, encontro neles um mundo por descobrir.
Encontro neles a janela para a tua alma, e ainda assim manténs os teus olhos fechados para mim.
Nos teus olhos cor do carvalho velho e da cortiça antiga oiço palavras de amor nunca proferidas, oiço uma melodia quente e terna.
Esses olhos vêem-me realmente, e eu quero esconder-me de ti; é impossível, tu viste-me. Não me olhaste apenas, viste-me, conheces-me, sabes a matéria de que sou feita, e no entanto continuas a correr umas cortinas nos teus olhos, nas tuas janelas.
Deixas-me à beira da loucura com tantas palavras que os teus olhos dizem, entras na minha mente, apenas a recordação deles me faz andar à roda.
São duas janelas que me fazem sentir à beira de um precipício, olhas-me e desvias o olhar, entranhas-te de um modo suave e eficaz, deixas-me sem saber o que fazer.
Não.
Não quero mais este abismo para mim.
Fecho os meus próprios olhos para sair daqui, mas não consigo.
O teu olhar penetra a minha mente, persegue-me, não me deixa em paz, continua a empurrar-me para o desconhecido mesmo que eu tente fugir.
Tu não me deixas.
Prendeste-me a ti com duas amêndoas escuras, ternas e quentes.
Estou louca.
A cada passo que dou, sinto a tua presença, os teus olhos indagadores.
Eis que chego ao último centímetro de chão antes do precipício que leva ao desconhecido.
Quero fugir de ti, quero chegar a ti.
E a culpa é do teu olhar. Um olhar que fere, que magoa.
Fecho os meus olhos.
Inspiro fundo.
E dou mais um passo.
Caio neste abismo.
O que me esperará no fim?
Texto para Fábrica de Letras, para o desafio "Silêncio"
Encontro neles a janela para a tua alma, e ainda assim manténs os teus olhos fechados para mim.
Nos teus olhos cor do carvalho velho e da cortiça antiga oiço palavras de amor nunca proferidas, oiço uma melodia quente e terna.
Esses olhos vêem-me realmente, e eu quero esconder-me de ti; é impossível, tu viste-me. Não me olhaste apenas, viste-me, conheces-me, sabes a matéria de que sou feita, e no entanto continuas a correr umas cortinas nos teus olhos, nas tuas janelas.
Deixas-me à beira da loucura com tantas palavras que os teus olhos dizem, entras na minha mente, apenas a recordação deles me faz andar à roda.
São duas janelas que me fazem sentir à beira de um precipício, olhas-me e desvias o olhar, entranhas-te de um modo suave e eficaz, deixas-me sem saber o que fazer.
Não.
Não quero mais este abismo para mim.
Fecho os meus próprios olhos para sair daqui, mas não consigo.
O teu olhar penetra a minha mente, persegue-me, não me deixa em paz, continua a empurrar-me para o desconhecido mesmo que eu tente fugir.
Tu não me deixas.
Prendeste-me a ti com duas amêndoas escuras, ternas e quentes.
Estou louca.
A cada passo que dou, sinto a tua presença, os teus olhos indagadores.
Eis que chego ao último centímetro de chão antes do precipício que leva ao desconhecido.
Quero fugir de ti, quero chegar a ti.
E a culpa é do teu olhar. Um olhar que fere, que magoa.
Fecho os meus olhos.
Inspiro fundo.
E dou mais um passo.
Caio neste abismo.
O que me esperará no fim?
Texto para Fábrica de Letras, para o desafio "Silêncio"
terça-feira, 30 de março de 2010
Excerto da História que hei de publicar:
"Não era possível alguém acreditar que o ser humano era constituído apenas por uma dimensão, a física. Então onde se enquadravam os sentimentos, as emoções, as angústias? As tristezas e alegrias inerentes a qualquer ser vivo? E como se poderia descurar o treino da alma? Amélia não queria ficar oca por dentro, continuava a dizer, e se continuasse a passar tantas horas por dia a treinar apenas o seu corpo, rapidamente a sua alma estaria vazia. Não, isso não poderia ser. Por isso tinha querido ir ao parque. Precisava de viver muito mais, precisava de sentir muito mais, para poder criar a sua própria bagagem emocional que transporia para a dança. Não, ela não estava ali apenas por estar. Simplesmente descobrira que era chegada a altura de se dedicar mais à sua natureza interior. Captar cheiros, ruídos, sons, sabores, texturas. Tudo o que a enriquecesse interiormente seria, em altura própria, transformado em enriquecimento do que o seu corpo poderia fazer ao som da música. Precisava de se sentir em comunhão com o que a rodeava. Comunhão esta que se traduziria numa perfeita fusão do seu ser com a energia criadora que rodeava tudo e todos. Ela precisava de sentir a seiva que corria numa flor, precisava de sentir uma folha a ser abanada pelo vento, precisava de sentir os cisnes que no lago à sua frente nadavam, precisava de sentir a quietude das pessoas sentadas nos bancos em seu redor, precisava de sentir o que era ser um raio de sol a banhar as pessoas, precisava de sentir a dor de uma planta arrancada pela raiz, precisava de se tornar una com a Natureza e com as pessoas, fundir a sua alma com tudo e todos. Só assim, dizia, o seu corpo seria a legenda do seu interior.
Laura escutava a sua amiga, não fazendo ideia do quão profunda ela se estava a tornar a cada dia que passava. Começou a admirá-la ainda mais, pois se até aí vira apenas Mia como uma menina doce que dançava por prazer e com um dom que nem todos tinham, apercebia-se agora de que era muito mais que isso. Apercebia-se que estava defronte de um ser humano verdadeiramente completo, que queria desenvolver-se e conhecer-se ao máximo, explorar as suas capacidades físicas e psicológicas, ver o que podia fazer e até onde podia ir. Respeitando o desejo de Mia, Laura ficou apenas ao seu lado, vendo a paz que se espelhava no rosto ao seu lado e sentindo-se de certo modo infantil por não conseguir sentir toda essa necessidade que Mia afirmava (e mostrava, sem dúvida alguma) sentir.
Entretanto, Mia calara-se. Tudo nela era agora meditação. Inspirando, expirando, sentindo na pele e no ser o que ao seu redor se passava. Tentando imaginar e visualizar o seu Eu, a sua essência, sair de dentro da sua redoma física e tocar cada partícula visível e invisível que rodeava as duas amigas, sentadas lado a lado. Tentando visualizar-se a si própria, ao seu corpo, sentado no velho banco de madeira.
De repente, como se uma luz se abrisse na sua mente, começou a ter percepção do que a rodeava. Começou a sentir o que a rodeava. Começou a perder a noção de onde acabava ela e começava a Natureza e o Mundo. Manteve-se imóvel, quieta, acalmando o corpo e as batidas do coração, tomando consciência das suas duas metades. Os sentidos aguçavam-se, permitindo-lhe experienciar tudo de uma maneira nunca antes atingida. De repente, a Natureza explodiu nela como uma surpresa. Conseguia ouvir os pássaros nas distantes árvores, chilreando como pequeninas flautas, conseguia ouvir e sentir o vento nas copas das árvores como uma harpa a ser dedilhada por mil dedos ágeis, conseguia inclusivamente sentir a ternura entre os dois cisnes abraçados no lago como se fosse uma melodia terna tocada com amor num violoncelo envelhecido. Sentia a alegria dos jovens casais de namorados que passeavam por ali, sentia a excitação da rapariga que acabara de ser pedida em casamento, sentia o desespero daquela outra por ter visto o seu antigo amor de braço dado com a sua nova paixão… De repente, Mia não era já Mia apenas. Era uma taça, uma esponja, um receptáculo aberto a tudo quanto houvesse para sentir.
Assim ficou, durante muito tempo, até que lentamente acordou desse sonho acordado. Sentia-se calma, cheia, feliz.
- Sabes, Laura? Fez-me bem vir aqui!"
Laura escutava a sua amiga, não fazendo ideia do quão profunda ela se estava a tornar a cada dia que passava. Começou a admirá-la ainda mais, pois se até aí vira apenas Mia como uma menina doce que dançava por prazer e com um dom que nem todos tinham, apercebia-se agora de que era muito mais que isso. Apercebia-se que estava defronte de um ser humano verdadeiramente completo, que queria desenvolver-se e conhecer-se ao máximo, explorar as suas capacidades físicas e psicológicas, ver o que podia fazer e até onde podia ir. Respeitando o desejo de Mia, Laura ficou apenas ao seu lado, vendo a paz que se espelhava no rosto ao seu lado e sentindo-se de certo modo infantil por não conseguir sentir toda essa necessidade que Mia afirmava (e mostrava, sem dúvida alguma) sentir.
Entretanto, Mia calara-se. Tudo nela era agora meditação. Inspirando, expirando, sentindo na pele e no ser o que ao seu redor se passava. Tentando imaginar e visualizar o seu Eu, a sua essência, sair de dentro da sua redoma física e tocar cada partícula visível e invisível que rodeava as duas amigas, sentadas lado a lado. Tentando visualizar-se a si própria, ao seu corpo, sentado no velho banco de madeira.
De repente, como se uma luz se abrisse na sua mente, começou a ter percepção do que a rodeava. Começou a sentir o que a rodeava. Começou a perder a noção de onde acabava ela e começava a Natureza e o Mundo. Manteve-se imóvel, quieta, acalmando o corpo e as batidas do coração, tomando consciência das suas duas metades. Os sentidos aguçavam-se, permitindo-lhe experienciar tudo de uma maneira nunca antes atingida. De repente, a Natureza explodiu nela como uma surpresa. Conseguia ouvir os pássaros nas distantes árvores, chilreando como pequeninas flautas, conseguia ouvir e sentir o vento nas copas das árvores como uma harpa a ser dedilhada por mil dedos ágeis, conseguia inclusivamente sentir a ternura entre os dois cisnes abraçados no lago como se fosse uma melodia terna tocada com amor num violoncelo envelhecido. Sentia a alegria dos jovens casais de namorados que passeavam por ali, sentia a excitação da rapariga que acabara de ser pedida em casamento, sentia o desespero daquela outra por ter visto o seu antigo amor de braço dado com a sua nova paixão… De repente, Mia não era já Mia apenas. Era uma taça, uma esponja, um receptáculo aberto a tudo quanto houvesse para sentir.
Assim ficou, durante muito tempo, até que lentamente acordou desse sonho acordado. Sentia-se calma, cheia, feliz.
- Sabes, Laura? Fez-me bem vir aqui!"
Batalha perdida
Fecho os olhos.
Estou decidida a dormir, o cansaço que cobre o meu corpo é demasiado grande. Sinto as pernas dormentes, as costas doridas, os braços pesados, os olhos ardentes.
Fecho os olhos e quero dormir.
Mas o meu cérebro desperta. O corpo dorme, o cérebro e a mente estão acordados, activos, com energia a mais.
Fecho os olhos, e de repente acordo mais que durante as horas em que o sol brilha no meu dia. A minha mente vagueia, está atenta a cada galho que estala lá fora, a minha audição cresce e aumenta, ouve cada susurrar do vento em contacto com as árvores. Oiço o relógio silencioso que não tenho no quarto.
Oiço o tempo a passar. Entre cada segundo que o ponteiro inexistente bate, sinto a duração de um século.
Viro-me.
Quero dormir. Amanhã tenho de me levantar cedo, já sei que me vai doer a cabeça.
Fecho os olhos com mais força.
Tento adormecer o meu corpo. Forçar a insensibilidade. Digo para mim que os meus pés estão a dormir.
Mas a minha mente está desperta.
Quanto mais tento dormir, mais acordo.
Vou tentar outra abordagem.
Tento ficar acordada. Não adormeço.
Vou querer adormecer agora as minhas pernas. Milímetro a milímetro, centímetro a centímetro.
Não consigo.
Sinto-me desperta, concentrada, preparada para uma qualquer acção que ainda não identifico.
Este silêncio que me rodeia, no escuro da noite mais densa, é muito ruidoso e não me deixa dormir.
Acendo a televisão.
Tomo um calmante e abro um livro.
Cada vez o sono vai mais longe, cada vez estou mais cansada de lutar contra esta insónia que todas as noites me ataca.
Não consigo dormir.
Estou acordada, estafada, exausta, desperta.
A minha mente não se desliga do dia que passou.
Tento uma oração. Não resulta, estou tão cansada que me perco a meio.
Recomeço com a cantilena de quando era tão pequenina e tinha que decorar a tabuada. Digo a tabuada toda três vezes. É um erro, de cada vez que a digo estou mais desperta.
Tiro então o meu diário da gaveta, e escrevo, escrevo, escrevo.
Quanto mais escrevo, mais acordada estou.
Praguejo.
Tudo à minha volta é silêncio, um silêncio desesperante que me faz querer gritar de terror! Quero dormir!
Não consigo.
Estou cada vez mais desperta, estou cada vez mais acordada, cada vez falta menos para o despertador tocar.
Fora, começo a ouvir o canto dos primeiros pássaros da manhã.
O seu canto entranha-se em mim, faz-me desesperar porque só durmo no silêncio, e o silêncio não me deixou dormir nesta noite longa.
Cerro uma vez mais os olhos.
Desta feita para não deixar que as lágrimas de frustração me corram pela cara.
Estou cansada, tão cansada… e a minha mente ainda trabalha, não me dá um segundo de descanso.
Penso no meu local feliz, uma biblioteca, um livro, uma folha de papel e uma caneta, uma lareira, vejo o fogo a crepitar, sinto o calor dele a envolver-me, oiço a madeira ser lambida e afagada pelas chamas, aquele barulho tão característico de quando começa a estalar, a cor do fogo entra pelos meus olhos, afinal não é o fogo, são os primeiros raios de sol que entram pela minha janela, e eu estou cansada, tão cansada, e finalmente fecho os olhos, acariciada por essa luz morna do sol-fogo, e de repente o despertador toda.
A insónia venceu-me, nada dormi, levanto-me estafada desta batalha que perdi.
Há um dia de trabalho pela frente.
sábado, 27 de março de 2010
E de repente...
Fecho os olhos. Inspiro profundamente e obrigo-me a esquecer do mundo que me rodeia. Concentro-me apenas no bater do meu coração.
Em meu redor, uma sala cheia, um burburinho imenso, conversas cruzadas, uma tosse e um espirro, talvez um bebé a chorar.
Mas fecho os olhos e concentro-me.
Na minha cabeça, vou eliminando todos os sons. Penso na minha respiração, nos músculos que se contraem e se expandem cada vez que inspiro e expiro. Forço-me a visualizá-los.
Eis que já não oiço o bebé a chorar de fome e de sono.
Penso no meu coração, forço-me a olhar para ele enquanto trabalha mecanicamente.
Eis que já não oiço o senhor idoso a tossir nem aquela mulher grávida a espirrar.
Fecho os olhos e obrigo-me a encontrar aquele silêncio, a aniquilar aquela sala enorme, cheia de público.
Aos poucos, o negro silêncio vai cobrindo aquele espaço tão iluminado e tão barulhento.
Devagar. Eis que estou a chegar ao meu mundo. O burburinho ainda está lá, mas em mim vai-se esbatendo devagar e aos poucos.
Continuo a pensar na minha respiração. No meu coração. Obrigo-me a visualizar de antemão todos os movimentos que as minhas mãos vão fazer. Penso no que quero transmitir.
Inspiro lentamente e expiro lentamente. As conversas cruzadas já não me afectam.
Na minha mente, que atingiu o silêncio que eu tanto procurei, nascem novos sons. Nasce o que vou tocar.
Inspiro uma vez mais.
A sala está agora completamente muda, completamente calada.
Ao silêncio que nasceu ali, junta-se o apagar lento das luzes.
De repente, existo só eu.
Eu e o meu instrumento.
Tudo está calado, mudo, silencioso, expectante.
E de repente...
Como se já não fosse eu, mas sim alguém a guiar-me...
O silêncio é deliberadamente rompido, alguém pega nas minhas mãos e fá-las tocar.
E um novo silêncio, diferente, nasce naquele espaço.
Um silêncio apenas marcado pela minha música.
Sim... estou em silêncio... interpreto... estou em silêncio e em paz comigo mesma.
E quando acabo e a ovação do público é estrondosa, continuo a nada ouvir.
Estou no meu mundo, estou ainda a gozar a música, apenas essa ecoa na minha cabeça.
Tudo o resto é um filme mudo.
Escrito para a Fábrica de Letras, para o desafio "Silêncio".
Em meu redor, uma sala cheia, um burburinho imenso, conversas cruzadas, uma tosse e um espirro, talvez um bebé a chorar.
Mas fecho os olhos e concentro-me.
Na minha cabeça, vou eliminando todos os sons. Penso na minha respiração, nos músculos que se contraem e se expandem cada vez que inspiro e expiro. Forço-me a visualizá-los.
Eis que já não oiço o bebé a chorar de fome e de sono.
Penso no meu coração, forço-me a olhar para ele enquanto trabalha mecanicamente.
Eis que já não oiço o senhor idoso a tossir nem aquela mulher grávida a espirrar.
Fecho os olhos e obrigo-me a encontrar aquele silêncio, a aniquilar aquela sala enorme, cheia de público.
Aos poucos, o negro silêncio vai cobrindo aquele espaço tão iluminado e tão barulhento.
Devagar. Eis que estou a chegar ao meu mundo. O burburinho ainda está lá, mas em mim vai-se esbatendo devagar e aos poucos.
Continuo a pensar na minha respiração. No meu coração. Obrigo-me a visualizar de antemão todos os movimentos que as minhas mãos vão fazer. Penso no que quero transmitir.
Inspiro lentamente e expiro lentamente. As conversas cruzadas já não me afectam.
Na minha mente, que atingiu o silêncio que eu tanto procurei, nascem novos sons. Nasce o que vou tocar.
Inspiro uma vez mais.
A sala está agora completamente muda, completamente calada.
Ao silêncio que nasceu ali, junta-se o apagar lento das luzes.
De repente, existo só eu.
Eu e o meu instrumento.
Tudo está calado, mudo, silencioso, expectante.
E de repente...
Como se já não fosse eu, mas sim alguém a guiar-me...
O silêncio é deliberadamente rompido, alguém pega nas minhas mãos e fá-las tocar.
E um novo silêncio, diferente, nasce naquele espaço.
Um silêncio apenas marcado pela minha música.
Sim... estou em silêncio... interpreto... estou em silêncio e em paz comigo mesma.
E quando acabo e a ovação do público é estrondosa, continuo a nada ouvir.
Estou no meu mundo, estou ainda a gozar a música, apenas essa ecoa na minha cabeça.
Tudo o resto é um filme mudo.
Escrito para a Fábrica de Letras, para o desafio "Silêncio".
quarta-feira, 24 de março de 2010
Um silêncio que dói
Ali estava. Imóvel. Só. Ao seu lado, nada mais que um simples acessório tecnológico, um telemóvel.
Com um sinal sonoro bem audível.
"Eu ligo-te, eu dou-te notícias, espera por mim".
Ali ficara ela, à espera. Em seu redor, nada senão um mudo mundo que nada lhe dizia.
As horas passavam.
As semanas arrastavam-se.
A sala, escura, imóvel.
Meses deram lugar a outros mais frios, e de novo o calor intenso abafava a sala.
Dentro, apenas ela. Ela e o seu telemóvel.
Um ciclo anual se passou, e mais outro, e por fim ainda mais um.
Nada mudava na sala isolada onde ela se encontrava.
Ela e o seu telemóvel, mudo, silencioso.
Um silêncio que lhe gritava mais alto que qualquer grito estridente.
Um silêncio que magoava mais que mil facas espetadas no coração.
Anos e anos depois, nada mudara. Apenas ela, esperando já sem esperança que o telemóvel, agora morto, rompesse o silêncio a que se havia submetido.
Nunca aconteceu.
Ali ficou... ali ficaram. Dois corpos inertes, mortos... silênciosos...
Para o desafio "Silêncio" (Março de 2010), da Fábrica das Letras.
Com um sinal sonoro bem audível.
"Eu ligo-te, eu dou-te notícias, espera por mim".
Ali ficara ela, à espera. Em seu redor, nada senão um mudo mundo que nada lhe dizia.
As horas passavam.
As semanas arrastavam-se.
A sala, escura, imóvel.
Meses deram lugar a outros mais frios, e de novo o calor intenso abafava a sala.
Dentro, apenas ela. Ela e o seu telemóvel.
Um ciclo anual se passou, e mais outro, e por fim ainda mais um.
Nada mudava na sala isolada onde ela se encontrava.
Ela e o seu telemóvel, mudo, silencioso.
Um silêncio que lhe gritava mais alto que qualquer grito estridente.
Um silêncio que magoava mais que mil facas espetadas no coração.
Anos e anos depois, nada mudara. Apenas ela, esperando já sem esperança que o telemóvel, agora morto, rompesse o silêncio a que se havia submetido.
Nunca aconteceu.
Ali ficou... ali ficaram. Dois corpos inertes, mortos... silênciosos...
Para o desafio "Silêncio" (Março de 2010), da Fábrica das Letras.
Um silêncio inexistente.
E de repente há este silêncio.
Que relação antagónica temos! Vejo-me rodeada por silêncio a todas as horas do meu dia, tendo por única companhia a minha própria mente.
O silêncio povoa-se então de ruídos, músicas, cheiros e sons. É um silêncio ruidoso, como se invadisse a minha cabeça, como se ele próprio, silêncio, não tivesse direito a existir em mim. É um silêncio que se auto-aniquila.
Outras vezes é um silêncio que eu quero combater, que eu quero cheio de batalhas e de vigores, e ele não acede aos meus pedidos. Ele manda, é silencioso ou barulhento consoante os seus próprios desígnios.
Controla-me, sendo uma bênção ou uma maldição.
Não existo sem ele - mas existirá ele sem mim?
E no fim do silêncio imposto de um dia de trabalho, desejo outro tipo de silêncio. O silêncio da paz, da meditação. E não o alcanço, não neste mundo ruidoso, acelerado, frenético.
Silêncio imposto... silêncio necessário... silêncio desejado... silêncio odiado... Quantas definições para uma palavra tão pequena.
Quantas relações possíveis!
O silêncio de um telemóvel que se quer a tocar; o silêncio que há num grito mudo de ajuda, presente em actos desesperados e olhares vazios; o silêncio que nos agonia por todas as vozes interiores que nos povoam...
Silêncio...
Por muito imposto que seja, nunca existe. Porque por mais sós que estejamos, estamos sempre conosco. E nunca nos calamos perante nós próprios. A nossa voz até poderá não funcionar, os nossos ouvidos até poderão não poder escutar os sons que nos rodeiam. Mas em consciência, dentro de nós, nunca há silêncio.
Ainda bem. Por quê? Porque é a prova de que estamos vivos.
Escrito para o desafio do mês de Março de 2010 da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "silêncio".
Que relação antagónica temos! Vejo-me rodeada por silêncio a todas as horas do meu dia, tendo por única companhia a minha própria mente.
O silêncio povoa-se então de ruídos, músicas, cheiros e sons. É um silêncio ruidoso, como se invadisse a minha cabeça, como se ele próprio, silêncio, não tivesse direito a existir em mim. É um silêncio que se auto-aniquila.
Outras vezes é um silêncio que eu quero combater, que eu quero cheio de batalhas e de vigores, e ele não acede aos meus pedidos. Ele manda, é silencioso ou barulhento consoante os seus próprios desígnios.
Controla-me, sendo uma bênção ou uma maldição.
Não existo sem ele - mas existirá ele sem mim?
E no fim do silêncio imposto de um dia de trabalho, desejo outro tipo de silêncio. O silêncio da paz, da meditação. E não o alcanço, não neste mundo ruidoso, acelerado, frenético.
Silêncio imposto... silêncio necessário... silêncio desejado... silêncio odiado... Quantas definições para uma palavra tão pequena.
Quantas relações possíveis!
O silêncio de um telemóvel que se quer a tocar; o silêncio que há num grito mudo de ajuda, presente em actos desesperados e olhares vazios; o silêncio que nos agonia por todas as vozes interiores que nos povoam...
Silêncio...
Por muito imposto que seja, nunca existe. Porque por mais sós que estejamos, estamos sempre conosco. E nunca nos calamos perante nós próprios. A nossa voz até poderá não funcionar, os nossos ouvidos até poderão não poder escutar os sons que nos rodeiam. Mas em consciência, dentro de nós, nunca há silêncio.
Ainda bem. Por quê? Porque é a prova de que estamos vivos.
Escrito para o desafio do mês de Março de 2010 da Fábrica de Letras, subordinado ao tema "silêncio".
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