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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Um olhar apenas

Nos teus olhos cor da madeira escura encontro um abismo. Encontro neles promessas de paixões por realizar, encontro neles promessas de felicidade por encontrar, encontro neles um mundo por descobrir.
Encontro neles a janela para a tua alma, e ainda assim manténs os teus olhos fechados para mim.
Nos teus olhos cor do carvalho velho e da cortiça antiga oiço palavras de amor nunca proferidas, oiço uma melodia quente e terna.
Esses olhos vêem-me realmente, e eu quero esconder-me de ti; é impossível, tu viste-me. Não me olhaste apenas, viste-me, conheces-me, sabes a matéria de que sou feita, e no entanto continuas a correr umas cortinas nos teus olhos, nas tuas janelas.
Deixas-me à beira da loucura com tantas palavras que os teus olhos dizem, entras na minha mente, apenas a recordação deles me faz andar à roda.
São duas janelas que me fazem sentir à beira de um precipício, olhas-me e desvias o olhar, entranhas-te de um modo suave e eficaz, deixas-me sem saber o que fazer.
Não.
Não quero mais este abismo para mim.
Fecho os meus próprios olhos para sair daqui, mas não consigo.
O teu olhar penetra a minha mente, persegue-me, não me deixa em paz, continua a empurrar-me para o desconhecido mesmo que eu tente fugir.
Tu não me deixas.
Prendeste-me a ti com duas amêndoas escuras, ternas e quentes.
Estou louca.
A cada passo que dou, sinto a tua presença, os teus olhos indagadores.
Eis que chego ao último centímetro de chão antes do precipício que leva ao desconhecido.
Quero fugir de ti, quero chegar a ti.
E a culpa é do teu olhar. Um olhar que fere, que magoa.
Fecho os meus olhos.
Inspiro fundo.
E dou mais um passo.
Caio neste abismo.
O que me esperará no fim?


Texto para Fábrica de Letras, para o desafio "Silêncio"

14 comentários:

  1. Não me ponhas a chorar! ADOREI!!!!!!!

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  2. E por que é que não consigo aceitar o comentário de AuBoulot?? Maldita tecnologia!

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  3. Cai. Se é bom, se é mau, logo saberás. E, bateres com a cabeça no chão... pelo menos, por instantes, voaste.

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  4. Susana: obrigada pelo teu comentário =) Este texto não me retrata, nem a nenhuma situação que eu conheça/esteja a viver. É apenas, e como o nome do blog indica, um desafio de escrita. O tema deste mês, "abismo", não dá lugar para muita "divagação", e este foi o primeiro texto que escrevi subordinado a tal tema. É tão somente isso, um desafio, um exercício subordinado a um tema pré-proposto =)

    Beijinhos

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  5. Gostei muito, em especial da linguagem, acho que tá muito fixe...
    E deixa uma pessoa com curiosidade de saber quem é esse misterioso personagem cujos olhos, ou melhor, olhar, levam-na ao precipício, mesmo que seja apenas imaginário...

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  6. Já disse noutro texto da Fábrica, mas neste também encaixa, pois são nestes abismos que todos devemos cair e até saltar sem hesitação.

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  7. Johnny: achas? Lol eu não sou assim tão corajosa =) Acho que devemos temer os abismos, pois nunca sabemos o que encontramos do outro lado... =)

    Beijinhos

    Rita

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  8. Mais vale arrependermo-nos do que fizemos do que ficar a pensar no que poderíamos ter feito

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  9. Johnny: Sim, nisso tens razão. =)

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  10. De facto, porque não tentar saber o que está do outro lado? Porque não? Bom, mau? Só saberemos depois de arriscarmos. Beijinho. Muito fluída e intensa, a escrita.

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  11. Carlos: e quando se sabe à partida que o que está do outro lado é mau? Arriscarias à mesma? :)

    Beijinhos e muito obrigada pelas tuas visitas! Tenho tido pouco tempo, mas sempre que conseguir passo no teu Alto da Peúga! It's a promise!

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